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Quando Operar Hérnia de Disco: As 3 Indicações Reais

Quando Operar Hérnia de Disco: As 3 Indicações Reais

Na maioria dos casos, a cirurgia de hérnia de disco não é necessária — a hérnia melhora sem ela. Mas quando operar hérnia de disco é a decisão certa, existe um conjunto de critérios clínicos bem definidos que guiam essa escolha. O tamanho da hérnia no exame de imagem não está entre eles.

Por Dr. Normando Guedes — Neurocirurgião — CRM-GO 31728 — RQE 17078

O que entra pela porta do consultório

Ninguém chega aqui querendo operar a coluna. É muito comum o paciente chegar com tanto medo da palavra "cirurgia" que adia por anos um tratamento que mudaria sua vida — ou, no outro extremo, chegar com uma indicação cirúrgica na mão e querer ouvir que não precisa. O que entra pela porta, nos dois casos, é a mesma coisa: a vontade de se livrar da dor. A cirurgia é uma das alternativas para isso. Não a única, não a primeira, não a mais desejada.

O medo de cirurgia de coluna é real. E precisa ser. Todo procedimento envolve risco, e qualquer médico que não sente esse peso antes de indicar uma cirurgia está sendo leviano. O que não pode é o medo virar o cerne da decisão.

Eu vejo os dois erros com frequência no consultório. Pacientes com dor aguda, sem tratamento conservador adequado, chegam com indicação de cirurgia — e eu contraindico. E pacientes com quadros graves, arrastados por anos, que fugiram da cirurgia por medo — e que só ela poderia mudar de vida. Os dois erros têm o mesmo custo: sofrimento desnecessário.

A maioria melhora sem cirurgia — e o paradoxo das hérnias grandes

Aqui está algo que surpreende quase todo paciente que senta na minha frente: hérnias com extrusão e sequestro — as que causam a dor mais intensa, aquela que derruba — são exatamente as que têm maior chance de reabsorção espontânea.

Uma revisão sistemática documentou taxas de reabsorção de cerca de 96% para sequestros e 70% para extrusões. Protrusões menores chegam a 41%.

O mecanismo faz sentido: quando o material discal ultrapassa o ligamento longitudinal posterior e entra em contato com a circulação epidural, o sistema imune reconhece aquilo como invasor e vai lá buscar. Nas protrusões contidas, esse contato não acontece — e a reabsorção é mais difícil.

Reabsorção morfológica e resolução clínica não caminham no mesmo ritmo — isso precisa ficar claro. Mas a hérnia grande no exame não é sentença de cirurgia. O laudo descreve anatomia. Quem decide é a clínica.

Quando precisa fazer cirurgia para hérnia de disco?

Existem três situações em que eu indico cirurgia para hérnia de disco. Três — não mais. Vou desenvolver cada uma.

1. Perda de força

Quando a compressão nervosa começa a comprometer a função motora — o pé que cai, a dificuldade de subir escada, a perna que não responde — o tempo passa a ser inimigo. Déficit motor progressivo não espera. A descompressão precisa acontecer antes que a lesão se torne permanente.

2. Síndrome da cauda equina

Essa é emergência. Sem negociação. A síndrome da cauda equina — com perda de controle vesical ou intestinal, anestesia em sela, fraqueza bilateral — exige descompressão cirúrgica urgente. Uma meta-análise mostrou que cirurgia realizada em até 48 horas associa-se a melhores desfechos de função motora, sensibilidade e controle esfincteriano comparada à cirurgia mais tardia.

Aqui não existe "vamos tentar mais um pouco". Cada hora importa.

3. Sintoma que não está melhorando

Seja porque dura mais de 12 semanas, seja porque a dor é refratária ao tratamento conservador bem conduzido, seja porque é incapacitante a ponto de impedir a vida. Um ensaio clínico randomizado mostrou que a cirurgia precoce acelera significativamente o alívio da dor na perna — e que em 1 ano o resultado tende a ser semelhante ao do tratamento conservador.

Isso torna a escolha legítima. Quem está há meses sem dormir, sem trabalhar, sem viver, tem razão em não querer esperar mais um ano para chegar no mesmo lugar. Autonomia é do paciente — meu papel é dar a informação certa para que essa decisão seja tomada com clareza.

O que não é indicação de cirurgia

Dois equívocos aparecem toda semana no consultório.

A gente sempre tem que tratar a pessoa, nunca o exame. O que orienta a decisão é a correlação estrita entre o sintoma — onde dói, que movimento provoca, tipo e intensidade da dor — e a alteração específica presente na imagem. Sem essa correlação, o laudo não decide nada. Nenhum laudo decide.

O que a cirurgia entrega — e o que ela não promete

A cirurgia de hérnia de disco hoje é, via de regra, endoscópica. Menos agressão tecidual, recuperação mais rápida. Mas o objetivo — tanto na endoscópica quanto na microdiscectomia tradicional — é o mesmo: aliviar a dor na perna, a ciática.

A dor lombar é outra história. Ela nem sempre vem da hérnia. Pode vir das facetas, dos músculos, de sensibilização central, de outros fatores — e o fenótipo predominante muda com o tempo, o que muda o alvo do tratamento. Sem dor ciática, normalmente não se fala em discectomia. Indicar discectomia para dor lombar isolada é mirar no alvo errado.

A cirurgia precoce acelera o alívio da dor radicular. Em 1 ano, o resultado tende a ser semelhante ao do tratamento conservador bem conduzido. Isso precisa estar claro antes da decisão — porque a decisão precisa ser sua, não minha.

Sobre o medo de ficar paralítico

Esse medo é o que faz muita gente fugir de uma cirurgia que precisava fazer há anos. Eu entendo. E vou ser direto.

A maioria das cirurgias de hérnia de disco acontece nos níveis L4-L5 e L5-S1. A medula espinhal termina mais acima — em torno de L1-L2. Nesses níveis lombares baixos, ela simplesmente não está presente. O risco de paralisia por cirurgia de hérnia nesses segmentos é praticamente zero.

O medo precisa existir. Precisa ser proporcional ao risco real. Medo desproporcional também tem custo — e esse custo é ficar anos sofrendo por uma cirurgia que você precisava ter feito.

Perguntas frequentes

Vou ficar paralítico se operar a coluna?

Na cirurgia de hérnia de disco lombar nos níveis L4-L5 e L5-S1 — que são os mais operados — a medula espinhal não está presente. O risco de paralisia nesses casos é praticamente zero. O medo é compreensível, mas não deve ser baseado em uma premissa anatômica equivocada.

Recebi indicação de cirurgia e estou com medo. E agora?

O medo é legítimo e faz parte do processo — qualquer médico sério leva isso em conta. O que você precisa é entender se a indicação se encaixa em uma das três situações reais: perda de força, síndrome da cauda equina ou sintoma que não melhora com tratamento adequado. Se a resposta for sim, o medo não pode ser o motivo para adiar.

Posso buscar uma segunda opinião antes de operar?

Sim. Sempre. Médico sério não se ofende com segunda opinião — ao contrário, espera que você faça isso em uma decisão dessa magnitude. O que importa é que a segunda opinião seja baseada na sua clínica, não apenas no seu laudo.

A hérnia pode melhorar sem cirurgia?

Na maioria dos casos, sim. Hérnias com extrusão e sequestro — as mais sintomáticas — têm as maiores taxas de reabsorção espontânea documentadas na literatura. Isso não elimina a necessidade de acompanhamento clínico, mas confirma que a cirurgia não é o caminho obrigatório na ausência das três indicações descritas acima.

Referências

  1. Peul WC, van Houwelingen HC, van den Hout WB, et al. Surgery versus prolonged conservative treatment for sciatica. N Engl J Med. 2007;356(22):2245–2256. https://doi.org/10.1056/NEJMoa064039
  2. Bailey CS, Rasoulinejad P, Taylor D, et al. Surgery versus conservative care for persistent sciatica lasting 4 to 12 months. N Engl J Med. 2020;382(12):1093–1102. https://doi.org/10.1056/NEJMoa1912658
  3. Chiu CC, Chuang TY, Chang KH, et al. The probability of spontaneous regression of lumbar herniated disc: a systematic review. Clin Rehabil. 2014;29(2):184–195. https://doi.org/10.1177/0269215514540919
  4. Ahn UM, Ahn NU, Buchowski JM, et al. Cauda equina syndrome secondary to lumbar disc herniation: a meta-analysis of surgical outcomes. Spine. 2000;25(12):1515–1522. https://doi.org/10.1097/00007632-200006150-00010
  5. Postacchini F. Management of herniation of the lumbar disc. J Bone Joint Surg Br. 1999;81(4):567–576. https://doi.org/10.1302/0301-620x.81b4.10213

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